domingo, 14 de abril de 2013

Seca provoca flagelo econômico em Pernambuco



Pecuária do Estado contabiliza prejuízo de R$ 1,5 bilhão
 / Alexandre Gondim/JC Imagem

BOM CONSELHO – Na seca de 1932, o jovem Miguel Arraes decidiu fazer prontidão na frente de sua casa, no município cearense do Crato. Com uma jarra do lado e bolachas à mão, o ex-governador de Pernambuco distribuía água e comida com retirantes famintos. Hoje, a calamidade tem outra face. A imagem de crianças esquálidas de Vidas Secas não representa a “nova estiagem”. Programas de transferência de renda abrandaram a vergonha da fome. O flagelo é econômico. No Semi-árido pernambucano, atividades produtivas foram quase dizimadas. Só na pecuária, o prejuízo é de R$ 1,5 bilhão. Há 2 anos não cai chuva suficiente para plantar feijão e milho. O verão prolongado comprometeu até a produção irrigada. Entre os meteorologistas é consenso que as previsões para os próximos três meses não são otimistas.
“Se não chover dentro de mais um mês vou abrir a porteira do curral e deixar o gado ir embora”, confessa, desolado, o pequeno criador Sebastião Curvelo, de Bom Conselho (Agreste). Bastim, como é conhecido no campo, admite abandonar a atividade de uma vida inteira, por falta de condições para alimentar os animais. Desde que a estiagem se prolongou, o produtor divide o dinheiro da aposentadoria rural com os bichos. “Fico com uma parte para a feira da família e o restante gasto com eles, mas não tô aguentando”, diz. 
Anêmicas e desnutridas, as vacas quase não produzem mais leite e deixam de gerar renda para virar um fardo. “Hoje a bóia delas é folha de bananeira. Compro uma carrada por R$ 200 e ainda tenho que pagar mais R$ 200 pelo frete”, calcula Bastim, que chegou a ter 60 animais, mas hoje só restam 13. Uma parte vendeu barato e outros morreram de inanição. 
A terra esturricada e sem pasto obriga os criadores a uma rotina de peregrinação pelo Semiárido em busca de água e comida para os animais. Referência de uma pequena produtora que conseguiu estruturar seu sítio, Maria Tito Luz, de 51 anos, vendeu uma casa e pediu empréstimo para manter o curral vivo, no distrito de Barra do Brejo, em Bom Conselho. Os barreiros secaram e a silagem armazenada para dar ao gado na estiagem só durou seis meses. “A última trovoada que deu por aqui foi em junho de 2012, mas foi fraca. Nasci e me criei por essas bandas e nunca vi uma seca dessas”, diz. 
Os carros-pipa do Exército, do Estado e da prefeitura nunca deram o ar da graça em Barra do Brejo. Maria é obrigada a desembolsar R$ 120 por semana num pipeiro para encher o barreiro onde os bichos matam a sede. O sol a pino e o céu sem nuvem, de um azul estridente, fazem a água evaporar rápido. Junto com os irmãos que moram na vizinhança, a criadora cotiza a compra de palma, vai buscar cana-de-açúcar doada pelo governo e disputa espaço nos mananciais onde resta uma nesga de água. 
“Se a praga (da cochonilha do carmim) não tivesse acabado com a palma, nossa situação seria diferente. Ela era a salvação do gado. Hoje, precisamos buscar a planta em Alagoas. Pagamos R$ 600 por um caminhão pequeno e quem vende ainda nos obriga a cortar o caule e carregar o caminhão”, conta. A cochinilha dizimou 90% da plantação de palma de Pernambuco.

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